22.1.10

A SAGA DA DEUSA DE MADEIRA

A SAGA DA DEUSA DE MADEIRA
(É um pouco dos acontecimentos ocorridos quando faço determinadas obras)

Na vitrola, Ray Charles.
Na memória, Mirian Makiba.
Por que pensar nela depois de 40 anos
se ninguém mais a toca?

“Sacundinga, Sacundega,
Datuí batapaba, Datuí batapaba.
Aí a mama, aí a mama,
Datuí batapaba.”

Preciso de dinheiro.
Mas, “Na minha casa todo mundo é bamba”,...
“ Não dou bola para o alheio”.
Já que alma não precisa de dinheiro,
Busco a formosura negra.

Mulher do tudo grande.
Olhos, nariz, boca. Sem dúvida, enormes!
Um bundão onde alguém poderia afundar.
Coxas grossas.
Seios gigantescos,
Prontos a jorrarem vida através de mamas
extensas e grossas.
Mamas volteadas por vistosas auréolas marrons
a brotar dos peitos.
Naturalmente... Mãos e pés hão de ser delicados.

Não poderia faltar neste ébano corpo nu.
As enormes argolas a despencar das orelhas.

Estudo cada detalhes desta obra. Desenho e penduro o projeto da bela negra na parede.
Que eu a esculpa com extrema dedicação.
Que ela desperte em todos, encantamento e admiração.

“I m to go back to Bahia”
O tempo transcorre, o formão realize incisões.
Os pés incham, a madeira é dura.
Mas, minha alma deseja: vida para a imagem.

“Mama África”
Dias passam por ela.
O pescoço e as costas doem.
Danço “Sem saber dançar”
para movimentar o corpo ferido, de forma diferente da posição de entalhar.

Danço, canto, beijo minha amada
A madeira resiste, a alma clama:
Persista!

“Are Krishina , Are, Are...”
Os Are-Krishinas acompanham o compositor no rádio.
Durante o jantar, o repórter na TV, mostra a riqueza da arte indiana.

A noite é quieta, a alma me domina.
Um esporão soberbo criva minhas costas como uma estaca de madeira enterrada no meu corpo;
Minha filha chega comentando algo sobre a Índia.
Vem a memória as cítaras e o Baghvad Gita na prateleira.

A madeira é difícil.
O corpo se despedaça, a alma proclama:
Mão a obra!

Danço, Danço, Danço.
Beijo a esposa, deito de bruços para enganar a dor.

Durante entalhes difíceis,
chegam almas dispostas a pousarem para as esculturas.
Às vezes, acontece visita dos santos já entalhados.
Confundo com fregueses e saio na loja para atendê-los.
Ninguém há.
Esqueço que olhos materiais não podem ver espíritos.

Os dias se sucedem.
Surpreendo-me com a obra.
Não há mais uma “Mama África”,
Mas, há “A Deusa Indiana”

A geladeira está vazia.
O ímpeto pela obra sobrepuja a fome.
Seria pior se faltasse café.
Impossível continuar se faltasse cigarros.

Acrescento ao conjunto de dores que me atacam, mais uma: a LER dos braços.
Danço, danço muito sem saber dançar.

Os dias vão e vem.
Algumas horas dedicadas a outra encomenda, acaba rendendo: meio quilo de café, leite pão e cigarros.
Outras almas visitam o ateliê.
Minha alma não pára. Cria, recria inúmeras outras peças, enquanto executo uma única obra.
Tempo é minha saia justa.
Engordo de ansiedade por não poder fazer tudo o que passa dentro de minha alma.

“Aleluia. Aleluia...”
A escultura termina.
Não se vê a negra, nem tampouco a indiana.
Há a mulher do mundo, de todas os povos.
Como haveria de ser. Traz no ventre: a vida.

Rubens Prata 20/11/2007

Os acontecimentos, o ambiente, certamente, influenciaram na aparência desta nova mulher.
Quem sabe, as almas que aqui estiveram não deram uma mãozinha.
Só sei que minha memória material não sabe o que aconteceu.
Mas, com certeza, minha alma satisfeita sabe o que fez.

Rubens Prata 20/11/2007