26.1.10

INCONTINÊNCIA VERBAL

Hoje é 16 de Janeiro de 2010 – 11,30 hs. Raramente escrevo neste horário. Devo ter sofrido estes dias um ataque de normalidade, digo “normalidade” – entre aspas.
Faz 29 dias que operei minha vista e vou passar mais 30 dias de recuperação sem poder fazer arte. Sou um caso especial por ter uma única vista e fazendo meu tipo de arte, esparramo muita poeira prejudicial aos olhos.

Pois é:

Estou com raiva de mim.
Deixei-me contaminar com o vírus de “normalidade”,
Doença que faz o homem competir,
Em vez de solidarizar-se.
Que faz desconfiar,
Em vez de confiar.
Desacreditar
Em vez de acreditar.
É que falo pelos cotovelos.
Com um papel. É claro!
Que, humilde, tudo aceita.
Falo com o papel porque os normais.

Ah! Esses normais...
Treinados pelo ensino dirigido,
Hipnotizados pela mídia,
Iludidos pela sociedade do consumo
Estão muito ocupados.

Estou com raiva de mim,
Pois, deixei de ser louco.
A demorada convalescença,
O marasmo criativo,
Desesperou-me,
E, desespero é coisa de normal.

Pus-me a competir,
Como um animal novo a demarcar território.
Exatamente como os normais fazem.
Epa! Esse espaço é meu. Ninguém tasca!
Desmanchei meu diário com inúmeras notas
Para separar poemas como se fosse editar um livro.
Que obscena e inútil corrida!
Esqueci-me que o universo conspira a favor dos doidos.
Esqueci-me que um “lírio do campo” como ensinava o Mestre, jamais poderia vestir-se e transvestir-se tão ricamente como um ser humano.
Esqueci-me que os normais não ouvem, não vêem, não sentem.
Estão ocupados demais com a fazendinha virtual, o big-brothers, o fim do Zebedeu à bala perdida, a traição do cônjuge, o prato de amanhã.

Estou com raiva de mim,
Aporrinhei meus amigos
Com desejos normais,
Com incontinências verbais.
Estou com raiva de mim,
Desculpem-me todos,
Vou tomar tento,
Ficar logo, muito loucooooo!

Rubens Prata 16/01/09