17.11.13

O ONIBUS PARA A ZONA LESTE



Se alguém me pedisse para falar sobre uma localidade desconhecida do mundo, eu não indicaria  Butão ou Tuvalu, por incrível que pareça, eu lembraria da zona leste da capital paulista onde apesar de morar milhões de pessoas espalhadas por inúmeros bairros, nada se sabe sobre esse lado da metrópole.

Agora tem três tipos de transportes que servem a essa região, o metrô que segue apinhado de gente até Itaquera, os pavorosos trens da Central do Brasil fabricados nas décadas de 30 e 40 sob licença da Budd (empresa norte americana) que chegam a Mogi das Cruzes através de dois ramais da linha férrea e, os inúmeros e decadentes ônibus partindo do Parque Dom Pedro em direção a diversos bairros.

A zona Leste é o lugar onde os médicos se recusam a atender, os policias fogem, o crime prolifera, o desrespeito a pessoa humana é total e nada sai no jornal porque os repórteres – classe média – nem chegam perto. No entanto,  lá mora a maioria dos trabalhadores honrados, que constroem a cidade, limpam as casas, dirigem os veículos e tudo o mais que a urbe precisa.

Os trens, sempre atrasados, são imundos, abarrotados, os guardas da linha férrea guardam com ênfase toda a truculência dos policiais do tempo da ditadura. Há nos vagões o pessoal que vive bolinando as mulheres, as gangues, a turma que antigamente fazia o pagode e hoje talvez façam o Funk, houve ocasião na qual proliferavam pregadores de aspecto grosseiro e ternos desbotados a alugar nossos ouvidos com hinos gospel e pregação fundamentalista. Tudo isso misturado com aquele odor de marmita vazia azedada e suor em abundância. O barulho é ensurdecedor, pessoas falando alto, outras cantando somados ao som das ferragens arranhando até os tímpanos de nossa alma.

É nesse ambiente ignoto que minha história se desenrola. Normalmente fico na empresa até bem tarde da noite lendo alguma coisa justamente para evitar o rush da hora na qual todo mundo sai do trabalho, me dirijo ao ponto de ônibus, espero na fila para não ir em pé e parto para casa. Mas naquele dia tive que fazer uma entrega obrigando-me a tomar a condução no meio do caminho. Peguei o ônibus no muque, ou seja, na porrada mesmo, senão não entrava, segui despencando com o ônibus com ligeira inclinação para o lado da porta por causa do peso. Pé a pé, digo pé a pé porque seria impossível dizer passo a passo naquele aperto, fui me imiscuindo ônibus adentro, o veículo fedia como o trem da Central.

As brecadas do motorista pareciam ser premeditadas para socar ainda mais os passageiros na parte da frente do transporte. E assim, pé a pé, fui me aproximando da roleta do cobrador. O barulho do motor do ônibus somado ao vozerio das pessoas era ensurdecedor, mas havia uma conversa muito estúpida acontecendo entre tantos sons me intrigando. A medida que me aproximava do cobrador fui me inteirando do fato. Havia na frente do cobrador um banco de lado atrás das ferragens que circundavam a roleta, no chão prensado entre estas ferragens e a gangue que sentava nesse banco havia um rapaz franzino caído.

O rapaz gemia e mostrava hematomas no rosto, as pessoas ou demostravam indiferença, ou tinham medo de se intrometer. Vendo aquela gente com os pés sobre o corpo do infeliz não me contive e reclamei indagando porque eles estavam agindo assim. O mais troncudo da turma disse:

--“Véio” não meta o nariz onde não foi chamado senão vai sobrar “pra tu múmia”. Indignado, sem poder me conter retruquei:

--Olha, isso que vocês estão fazendo não se faz com um ser humano, deixem esse rapaz em paz. Em meio à rizadas da turma o mais musculoso ameaçou-me:

--“Véio” vai tomar no cu! Mais uma palavra sua será você que vai apanhar. Entendeu?

Eu não quis demonstrar medo porque é justamente o pavor a porta para o abuso maior e respondi enérgico.

--Agora o mocinho quer bancar o durão. Olha menino você vai se dar mal agindo assim.

--Ahahaha! Gargalharam todos.

Naquele tempo, meu avô com 106 anos falecera há algumas semanas, não tinha bens materiais, a não ser sua cama, um radinho antigo, um baú, mesa e três cadeiras muito velhas, umas canecas feitas com lata de óleo, um velho jogo de damas, muitos livros e uma garrucha de dois gatilhos com a qual, todo ano no dia de São João, dava alguns disparos para cima. Não sei se porque era bastante velha, acontecia uma explosão gigantesca, provocava muita fumaça e o estouro se fazia acompanhar de  um relâmpago assustador. Pois bem, eu havia herdado seus livros que guardara na empresa onde trabalhava e estava levando a garrucha para casa naquele noite.

--Vocês ainda tem coragem de agredir um idoso, com problemas no coração, dores pelo corpo todo. Disse eu no propósito de amenizar a ameaça.

--É claro que sim. Idiota! Respondeu um deles já se levantando para atacar-me. Num ínfimo instante meu instinto de preservação fez-me retirar a garrucha do bolso da jaqueta e acertar com um só gatilho a testa do dito cujo bem entre os olhos.

A grande quantidade de fumaça dentro do ônibus cheio, o enorme estampido, o relâmpago de fogo, o cheiro de pólvora transformara-se em alvoroço e terror. Pessoas que nem sabiam o que tinha acontecido, se atiraram pela janela, outros desceram  se pisoteando, alguns paralisaram, as mulheres gritavam e eu assustadíssimo com tudo, ainda apontava a arma para um rapaz da turma que não fugira. Disse:

--Ainda tenho uma bala, o que você vai fazer?
--Nada, Nada doutor! Respondeu ele.

Passei para frente sem prestar atenção nas pessoas acompanhado do rapaz raquítico desta vez a passos rápidos, pois todo mundo se espremia para apearmos logo do veículo. Desci, o jovem agradeceu e sem coragem de mais palavras seguiu rua abaixo.

 Eu procurei sair de cena o mais breve possível, mas o coração  ainda estava disparado, a adrenalina não arrefecia.

No caminho, a cena do crime me acompanhava e eu pensava nas consequências. A garrucha era bem antiga, possivelmente nunca teve registro de proprietário e eu, um velho que ninguém sabia o nome e onde morava, apeei do veículo bem antes do lugar no qual costumo descer, atitude esta que confundiria quem quisesse me seguir e além do mais, não era o horário que costumo pegar  a condução. Contudo, já estava na região da zona leste onde “nada acontece”, onde todo mundo tem medo de falar, onde nada se investiga porque ninguém tem importância nenhuma e sendo assim a polícia nem vai atrás, nem repórter e autoridade nunca chegarão por estas bandas. Portanto, podia sim, ficar mais calmo.

Essas reflexões amenizaram meu coração exaltado, a adrenalina baixou e, olhando para trás constatava que ninguém da gangue do falecido estava por perto. Eu estava só e sem perigo.

Os acontecimentos deixaram-me um peso enorme no corpo, mas aqui neste lugar, não se vê nunca árvores na calçada e jardins com bancos, só tem amontoados de casas mal acabados ou faltando reboco, algumas Lan house,  igrejinhas evangélicas e muitos botecos por todos os lados.
Sentado no bar, relembrava de quando era pequenino com 10 anos trabalhando numa farmácia onde com minha bicicleta entregava remédios e ás vezes insistiam, encantados com minha pequenez, para que eu aplicasse também as injeções.

Naquele tempo as ruas não tinham calçamento e, enquanto entregava remédios procurava pelo caminho pedras bonitas para colecionar, já tinha até muitos pequenos cristais em casa, mas um dia achei uma pedra negra lustrosa como um sapato bem engraxado, era grande e tinha uma característica a mais que me encantou, pois pesava demais para o tamanho.

Peguei-a para minha coleção.

Dia após dia, quando saia e voltava para farmácia, havia um menino do meu tamanho me aporrinhando, me xingava, falava impropérios e depois saia correndo sabendo que não podia largar a bicicleta para persegui-lo. Mas naquela ocasião eu estava com a pedra pesada na garupa e atirei-a com força sem saber que atingiria sua cabeça. Foi aí que o menino caiu estatelado na calçada com o sangue jorrando e escorrendo pelo meio fio ladeira abaixo. Fiquei tremendo, apavorado larguei a bicicleta no chão quase em frente da farmácia e corri como louco em direção a um  brejo existente no bairro. 

O brejo era enorme, com taboas bem altas e quem lá entrasse ficava atolado para cima do joelho. Eu conhecia bem o local porque passava lá minhas aventuras de criança e acreditava que ninguém me encontraria ali. Fiquei escondido até tarde da noite atento para ver se alguém me procurava. Voltei para casa sujo de lama e empipocado de mordidas de muriçoca. Os dias se passaram e nunca mais vi o menino na rua. Não sei o que aconteceu com ele, se morreu, ficou paralítico ou viveu.

Quando moço, outro fato horrível ocorreu ao tentar estacionar meu Fusquinha 63, um brutamonte, guardador de carros, começou a me esmurrar através da janela do veículo porque eu estava estacionando num lugar onde ele não queria. O primeiro soco me atingiu em cheio, no segundo eu já havia empunhado um formão que estava no console e intuitivamente ou instintivamente o levantei no momento em que seu braço desfechava uma segunda pancada. A própria força e velocidade do ataque fez com que minha goiva rasgasse seu pulso jorrando sangue pelo meu rosto e corpo todo. Fiquei estático, apavorado, descuidei-me do volante até meu carro escorregando pela rua dar uma pequena batida noutro.  Um transeunte que observara o fato, disse que eu tinha razão em me defender e deveria ir logo embora antes que chegassem mais pessoas. Assim fiz, saindo com meu carrinho azul um pouco amassado.

Naquela época, trabalhava na Rua Bráulio Gomes em São Paulo num prédio dos escritórios de uma grande indústria química onde eu e alguns colegas resolvemos aprender e nos divertir fazendo pequenas esculturas com restos de móveis quebrados na ora do almoço e justamente neste dia tinha comprado formões afiadíssimos para a tarefa. Foi um desses formões a talhar o braço do animal agressor.

Agora, quem diria! Eu, Gautério Fulgêncio da Cruz, depois de velho, acabaria matando um jovem bandidinho  inconsequente.


Rubens Prata