17.7.12

O PACTO



          As inconsequências dos governantes mal calculando a economia somada à doença crônica da esposa redobravam o trabalho na modesta casa de Ananias.
         João, o filho mais velho, começara no trabalho desde tenra idade, sua inconsistente instrução escolar transcorria à noite à custa de horas mal dormidas. Uma canseira notável acrescentava à franzinice herdada de sua genitora um aspecto ainda mais debilitado, quase a denunciar futuras complicações na saúde.
         Ananias nunca reclamava da vida apertada e, se o desânimo apoderava-se de alguns de seus familiares, dizia:
         --Vocês não perceberam, mas temos exatamente o necessário para progredirmos. Se não sabemos o motivo de nossas dificuldades, é por desconhecer o que antecedeu nossa existência na Terra, mas... Deus é Pai e nos quer bem. Sabe o que será necessário para o burilamento de nosso caráter. Se hoje passamos privações, confiemos, pois será justamente este sofrimento que nos aprimorará, dilapidando-nos para vivências mais felizes no futuro. Tenhamos a certeza do doente que se expõe às dores do bisturi, ao recato nos seus hábitos, a disciplina de ministrar-se o remédio para depois obter a saúde, à responsabilidade em cuidar-se com mais zelo e ao caráter disciplinado para não recair em convalescença.
         A regularidade com a qual João e Ananias supriam o lar permitia ao caçula Tiago certa liberdade. Cuidava superficialmente da casa, zelava pela mãe, tinha tempo para o estudo e os amigos. Frequentava a escola diurna. Assemelhava-se ao pai, olhos vivazes, robustez, prometendo ser um pouco mais alto que seu genitor.
         O irmão João, não se sabia se por ciúmes, encanto com a incrível disposição física e hilaridade do irmão, ou por recriminar-lhe os passeios, sem critério ou pela escolha das companhias e por causa da duração da viagem, dizia:                  --Tiago tem rodinhas nos pés, nunca para em casa, conhece a cidade inteira. Digo isto porque quando saímos juntos, Tiaguinho relata fatos vividos por quase todos transeuntes avistados pelo caminho.
         Noite após noite, Ananias e João, devido à rotina de seus dias, tinham pouco a conversar. No entanto, Tiago os distraia,
 ora descrevendo entusiasticamente fatos curiosos e engraçados acontecidos na escola, ora mostrando condoído as desgraças ocorridas no vilarejo. Ananias sempre atento ao dever paterno nunca descuidava da educação filial. Aproveitava o enredo das histórias do
Tiago para alertar sobre o malefício da algazarra em classe, o respeito ao professor, o benefício da instrução, sempre lembrando que más amizades aproximam-nos do erro, da desgraça que a imprudência, o vício, a preguiça, a desinformação, má educação eram em grande parte a causa dos dramas da vida de muita gente.
         Os dias transcorriam arrochados ao extremo. Só evitava as eminentes revoltas contra a carência daquela família, a incontestável paciência, dedicação e firmeza de propósitos que emanava quase sem palavras daquele homem, como algo a magnetizar aquele ambiente amainando de antemão as explosões de desespero. A nobreza de caráter e atitudes eram-lhe tão expressivas e latentes que a sua simples presença, em casa como no trabalho, impedia que uma palavra mais grosseira fosse pronunciada e, se alguém tivesse o ímpeto para uma atitude mais desonesta, era como se fosse impelido se conter diante dele. Ajudava a consolidar a paz, renovar-lhes a esperança, reforçar-lhes a consciência do valor da vida e do dever,  havia ainda, as metódicas leituras do Evangelho de Jesus realizadas a cada semana por um dos membros da família.
         Passavam-se os dias... Tiago já ultrapassa para um pouco a estatura do pai, o corpo bem formado consolidára-se num aspecto mais consistente. A instrução, mais completa, fizera com que os casos que contava diariamente fossem acompanhados de opiniões mais concludentes.
Ao contrário do que se esperava, João libertara-se da aparência franzina. Embora menor que Tiago, o trabalho forjara-lhe no corpo a resistência à fadiga acrescentando-lhe a capacidade de dedicar-se por horas a fio no cumprimento de uma tarefa. O brilho que começara a iluminar seus olhos negros deixava transparecer o caráter vigoroso de um homem acostumado a controlar-se em meio a adversidades.
No transcorrer dos dias... Com o agravo da doença da esposa. Ananias prazerosamente a cobria de carinhos e atenções; consolava-a utilizando as palavras do Mestre ao dizer que seu reino não era deste mundo, falava do lugar revervado aos aflitos, ao mesmo tempo repartia com ela as ideias do que deveriam fazer para o bem dos seus filhos.
Pensava Ananias:
--João tornara-se forte dispensando maiores atenções para a saúde, adquiriu profissão na lida desde pequenino e, por mais empecilhos que lhe sucedam nosso incentivo, o trabalho, o estudo custoso fizeram-lhe enraizar nas profundezas d’alma um desejo irredutível de buscar os por quês da vida, de tal forma que, com ou sem curso superior, acabará progredindo. Além do mais, a pobreza, a dificuldade de aprender as matérias escolares e os erros ensinaram-lhe a se esquivar de pensamentos orgulhosos. Quanto ao Tiaguinho... Será que errei, permitindo-lhe uma vida mais fácil?
Descuidei-me... (repetiu algumas vezes recriminando-se por não saber onde poderia estar errado).
O que ele tem de melhor, além da facilidade em fazer amigos e demonstrar certa insatisfação pelos sofrimentos alheios?
Não seria esta justamente sua melhor virtude? Já que lhe é fácil relacionar-se com os outros, um curso superior na área de ‘’Humanas’’ cair-lhe-ia sobmedida. Diplomando-se poderia aprimorar essa virtude auxiliando a diminuir os dramas que lhe pesam tanto. Certamente encontraria um sentido para a vida e muita alegria ao ver felizes os que hoje ele vê sofrendo.
Mas... E o dinheiro para a faculdade?
Algumas semanas depois uma temperatura irregular assolava a região. Às vezes num só dia ocorriam calor, chuva e frio intenso. Esse clima durou o bastante para derrubar muita gente forte na cidade. Houvera incontáveis casos de pneumonia e de uma gripe tão forte que acamava o mais resistente dos homens. Foi nessa época tenebrosa que, apesar das vigílias, orações. Carinhos, atenções e de se ter usado todos os recursos médicos, Carolina, a esposa de Ananias deixou a carne partindo para nova existência.
Embora desconfiassem que sua permanência sobre a Terra fosse curta, seu desenlace contrariava as expectativas da casa, pois a presença de Carolina representava um forte elo de união devido ao amor ao se dirigir a todos e do respeito que sempre fazia questão de ressaltar. Possuía uma afabilidade inconfundível e, mesmo não podendo, esforçava-se para realizar as tarefas importantes no lar.
Ananias sentia-se mais órfão do que os filhos. Porém, mantinha o ânimo, o equilíbrio e a certeza de reencontrar sua amada em futuro próximo. Tiago por viver mais tempo perto da mãe e por estar menos sujeito aos revezes da vida chorava copiosamente durante muitas noites. João, doído, continha-se pela consciência de que a vida continuava também para os desencarnados e sabia que aqueles possuidores de afinidades espirituais reencontrar-se-iam novamente em novos caminhos pela eternidade afora.
Ano e meio mais tarde... Cicatrizavam-se as feridas, Tiago e João concluíram o ensino secundário e sem necessidades de remédios o arrocho em que estavam diminuíra. Ananias, homem afeito a um único amor, jamais cogitava, em contrair novo matrimônio; mas, uma preocupação atazanava-lhe o pensamento, pois esse pequeno desaperto monetário criava a oportunidade do Tiaguinho na faculdade.
Ananias corou de alegria quando o próprio caçula, sem que seu pai sugerisse, manifestou o desejo de estudar alguma área de Humanas justamente por ter facilidades em relacionar-se com todo mundo.
O custo da empreita era grande, portanto cabia exigir empenho redobrado do Tiago. No intervalo, entre o término do secundário e o início Ananias esclarecia que cumprisse rigorosamente seu dever escolar, uma vez que João também o auxiliaria. Fazia ver que faculdade era uma oportunidade rara. Bastava observar na vila onde moravam quantos tiveram essa chance. Falava:
--A instrução não deve servir unicamente para facilitar a aquisição de conforto para o formado, mas, sobretudo, dar-lhe uma nova vida utilizando o conhecimento para melhorar a vida também dos semelhantes.
Tiago prometia ajudar os que sofriam assim que se formasse na faculdade. João sabendo de algumas traquinagens que o irmão escondera do pai, desconfiava; pressionava-o a fim de que a promessa não fosse outra mentira. Fazia-o entender que essa promessa com o pai era um PACTO. Pois ele e o pai, não aguentariam vê-lo jogar por terra o esforço para mantê-lo estudando. Tiago irritava-se. Não costumava refletir nos porquês dos seus maus humores; não atinava com a causa do seu nervosismo, nem mesmo se via irritado. Não percebia que o motivo de sua irritação era um germe de comodismo incrustado bem no cerne de sua alma. Tiago, quase adulto, deveria assumir as responsabilidades da maturidade, mas, não conhecendo a si próprio assumiria o estudo na faculdade sem dar-se conta que o motivo era retardar as responsabilidades de um adulto.
Tiago jurava de pé junto, prometia ao pai que ajudaria os
semelhantes depois de formado. Quando João forçava-o a lembrar dos juramentos descumpridos anteriormente. Tiago retrucava com beiras de ira.
         --PACTO É PACTO. UMA VEZ FEITO NÃO DÁ PARA SER DESFEITO SEM DEIXAR DE RESPEITAR-SE COMO HOMEM. Dizia o caçula sem notar que esta resposta estava mais ligada ao orgulho do que a uma consciência do dever.
Ano e meio ficaram para trás... A promessa de Tiago para trabalhar com o pai meio período foram se reduzindo para três e duas horas, isso quando não dormia até tarde demais. João, sem a companhia noturna do irmão, sem as correrias atrás de remédios para socorrer a mãe, absorvia-se em livros e debates produtivos com o pai a respeito do que lia.
         Determinada manhã, na oficina onde trabalhavam face cerrada, aspecto incisivo, Tiago pediu ao pai uma motocicleta. Argumento que os amigos tinham e ele ficava sempre fora dos passeios próprios para sua idade. Além do mais, era-lhe dificultoso ir à faculdade, à biblioteca, fazer pesquisas e trabalhos em grupo com os colegas de estudo.
         Ananias, enérgico como nunca se havia mostrado antes, retrucou:
         -- Não! Não! Não! Você é egoísta, não percebe o mundo à sua volta, não nota que, embora dignos, vivemos no limite de nossa condição, não podendo exceder de poucas moedas a mais em nossa despesa sem que isso gere um corte luz, de água ou o nome sujo no crédito da cidade.
         Intimidado pelos olhares atentos e recriminativos dos companheiros de trabalho do pai, Tiago saiu cabisbaixo.
         No mês subsequente, espalhou-se como uma bomba a notícia de que Tiago abandonara os estudos. Constatado o fato, Ananias não viu outra saída para melhorar o caráter de Tiago senão a rigidez. Forçou-lhe a volta à faculdade ao propor ao filho que, só poderia viver em casa se continuasse estudando e pagasse a faculdade com o próprio salário. Tiago pensou que deveria mesmo estudar, pois ficaria sem teto, sem alimento e acabaria até sem roupa se não cumprisse a vontade do pai.
Não precisando ajudar o irmão nos estudos, João preparou-se para o casamento, trabalhando com o pai, nos fins de semana, na construção de uma edícula, em terreno anexo à sua casa, onde moraria com a esposa.
O casamento realizou-se modesto no civil, com a terceira anista em sociologia Clara.
Pequena e dedicada, chamavam-na carinhosamente de Clarinha. Abeberava-se ela também, de nova compreensão dos deveres da vida na velha e metódica reunião de Evangelho na casa do sogro. Essas leituras transmitiam-lhe tanta compreensão dos problemas da vida que desejava que o mundo inteiro soubesse do bem que ela proporcionava. Por isso, convidava a todos que conhecia, fossem necessitados ou simplesmente pessoas que buscavam novos conhecimentos. Ao cabo de dois anos, a casa de Ananias quase não podia conter tanta gente.
Clara certificou-se de que o verdadeiro conhecimento não se adquiria pela simples ostentação do canudo universitário, pois João era-lhe uma prova incontestável. Quando conversando com professoras na casa do sogro, observavam-no com mais entendimento do que vários deles. Reconhecia que conhecimento só pode se realizar nas relações entre as pessoas e que esse só teria sentido e significado se produzisse o bem comum. Essa certeza encaixava plenamente em seus sonhos, pois, quando terminou os estudos, resolveu usar o que aprendera, solucionando vários problemas nas redondezas. Para levar a cabo suas intenções, convidava a todos que participavam de reuniões na casa de Ananias para trabalharem em beneficio dos necessitados da vila. Não demorou muito para alguém se apresentar para alfabetizar, outro para cozinhar, aquele outro para ensinar profissão, mais três se colocaram a disposição sem saberem exatamente o que e João em podiam fazer, muitos aceitaram contribuir com pequenas mensalidades.
Sete anos depois... Sentia-se a forte impressão de que a Providência Divina juntara ali exatamente as pessoas necessárias para resolverem muitos dos problemas identificados por Tiago na sua adolescência.
Constituiu-se com muita simplicidade, no terreno de João em frente à sua casa, um centro de atendimento, com salão, sanitários, cozinha e três salas menores. Tudo era modesto, sem forro, chão de cimento, mas o que valia era a eficiência. Desde as sete ate altas horas da noite, havia movimento naquele lugar. Revezando os dias da semana, por falta de espaço, la atendiam um barbeiro, uma cabeleireira, cursos profissionalizantes, música, jogos de xadrez e ping-pong aos sábados e domingos. Um médico e um dentista atendiam há um ano num trabalho preventivo, todas as sextas; almoço sempre tinha, alfabetização de adultos toda noite. Clara, João e Ananias se revezavam em palestras e o estudo do Evangelho diariamente. Enfim, esta casa tornara-se centro de integração e atitudes fraternas para o bairro.
João ainda trabalhava na velha oficina, mas quando voltava para casa, era seu prazer ter alguma coisa para fazer no centro.
Ananias, já aposentado, tinha o tempo cheio entre reuniões, ajuda a Clara, atenção aos netos. Clara usava a habilidade adquirida nos estudos para organizar tudo o que se referisse aquele centro de integração social.  
         Por outro lado... Tiago formado e morando em outro bairro, sempre recebia visitas da família. Ananias ciente de que o filho só realizaria a finalidade da vida quando pudesse livrar-se do egoísmo, lembrava-lhe da promessa. João irritava-o  dizendo que a promessa era um PACTO. Tiago respondia no início:
         --Vou cumpri-la sim, mas acabei de casar e o tempo me é precioso para consolidar minha união.
         O tempo passava. A cada indagação do pai Tiago ia respondendo:
         --Espera um pouco mais. Sua neta com esse corpo frágil exige em cuidados todo meu tempo de sobra. E assim as desculpas se multiplicavam.
         --Agora com dois filhos preciso esperar por melhores ganhos para dar-lhes o que precisam. Cumprirei a promessa assim que completar a casa. Já que meus meninos estão crescidinhos posso refazer a mobília da casa, uma vez que, estragaram quando eram menores. Só mais um pouquinho pai, não vê que dois filhos na faculdade exigem-me horas extras em demasia!
Muitos anos depois, Tiago respondendo repetiu:
--PACTO É PACTO, NÃO DÁ PARA SAIR DELE SEM DEIXAR DE RESPEITAR-SE COM HOMEM. Mais uma vez o filho invigilante não se apercebera do próprio orgulho. Ananias sem notar que por traz dessa resposta havia outra desculpa, disse:
         --Finalmente! Você vai ver quantas benção receberá por se dedicar aos semelhantes. E nem havia terminado o que desejava dizer. Tiago o interpelara:
         --Não é bem isso. Vou cumprir, mas as despesas com o casamento de minha filha primogênita exigem-me trabalho redobrado no escritório.
         O pai falecera, suas últimas palavras foram:
         --Encontrar-me ei com Carolina daqui a pouco         
Tiago não tinha mais a presença do pai lhe cobrando atitudes, mas tinha a lembrança do PACTO a lhe perseguir.
         Beirando os 50 anos, corpo arcado, da fisionomia desprendia, quase imperceptível, um ar de sovinice. O olhar não escondia ainda um pequeno brilho de ambição lhe restando. Uma ruga mais forte na testa quase denunciava que fora desenhada pela dor da consciência por não ter cumprido alguma promessa.
         Pensava ele...
        “Enfim, juntei o suficiente para usufruir do descanço, do prazer de realizar meus desejos”.
Interrompeu-lhe o sonho uma velha irritação, porque não conseguia esquecer sua promessa.
        --Ah!... A promessa? Mas depois de tantos anos de luta, estou cansado!
        Puxa! Estou mesmo tão exausto, nem cosigo levantar-me desta cama!
        Deixe-me tentar!  Engraçado... Não consigo mover nem minhas mãos, o pescoço está duro e minhas pernas parecem coladas à cama. Por quê?
        De repente... A voz da esposa ecoa no ar:
        --Depressa doutor, não sei mas... Parece que sofreu um enfarte!
        Tiago aflito, tenta se lembrar das palavras do pai nas horas de desespero:
         --Não lembro!... Não lembro!... Mas e a promessa? Preciso cumpri-la! Meu Deus dá-me tempo, tenho muito por fazer. Olha meu Deus, a consciência fala-me clara agora: A prepotência com que tratava todos e os cuidados ininterruptos comigo mesmo precipitaram-me muito rápido para a morte! Dá-me outra chance Senhor, eu vos suplico. Serei diferente, prometo!
         Antes que implorasse novamente uma voz carinhosa e conhecida interrompe-lhe:
         --Tudo foi lhe dado para cumprires tua missão na Terra, mas a promessa de caridade deve aguardar outra vida.
         Era Ananias acalmando-o.
         --Querido você terá outra oportunidade para valorizar melhor a vida, mas por enquanto acalme-se, pois o Criador sempre ouve aquele que se arrepende. Dizia Carolina afagando-o.

Rubens Prata

P.S. Este é um conto escrito há mais ou menos 15 anos atrás para o Jornal Fraternos, ao reeditá-lo notei que muita coisa mudou na minha maneira de escrever. Espero que gostem.