29.9.11

UBIRAJARA E O OVINI

Como sabemos, Ubirajara era apicultor e uma das suas tarefas era retirar enxames na mata e transferi-los para suas colmeias Langstrot especialmente preparadas para uma apicultura produtiva com muita técnica. Tarefa esta, que fazia sempre acompanhado de sua esposa, a mais perfeita profissional.
É da praxe dos experientes apicultores retirarem os enxames de dia, quando se pode localizar bem a rainha e transportá-los para o colmeal definitivo à noite, pois abelha não voa no escuro.
Madrugada adentro, se poram a caminho do colmeal para descarregar
os enxames devidamente instalados nas novas caixas.
Os caminhos eram sempre íngremes, em estradinhas de terra que muitas vezes a erosão das chuvas fazia enormes buracos na lateral da pista. Portanto, era preciso muita cautela ao dirigir.
Acontecia uma das mais maravilhosas noites já vistas no planeta. O céu estava limpo, não tinha Lua, o que realçava a extrema beleza do cosmo, assim como, a profusão infinita de estrelas. Só quem mora em sítio, longe de qualquer poluição e luz artificial já pôde ver uma noite destas.
Cuidadosos com as surpresas da grande descida da estrada iam os dois cantarolando e prestando atenção aos buracos e pedras do caminho quando um acontecimento incendiou até a última entranha da alma do Ubirajara e congelou o corpo de sua amada até o mínimo fio de cabelo. Tratava-se de uma fortíssima luz que descia vagarosamente de entre as estrelas para a Terra. Sua luz realçava muito no centro e se estendia afinando gradativamente para as laterais. Era mesmo uma visão de outro mundo.
-- Olha lá um disco voador Zélia! Gritara emocionado Ubirajara em meio a mesclas de entusiasmo e sensações inenarráveis.
-- Meu Deus! Exclamava sua fiel companheira.
Acelerava a perua mais e mais a fim de não perder em hipótese alguma a oportunidade de ver pessoalmente a inusitada aterrissagem de uma nave espacial.
Justo ele um curioso, esmiuçador nato, pesquisador das coisas da vida e da natureza. Ele que conhecera e desvendara o mistério dos fantasmas de Andrade Silva, que conhecia animais desconhecidos, como a cuíca que viu e pesquisou até descobrir que era um marsupial brasileiro. Ele que fez regressão até outras vidas, que despencara com caixa de abelha de uma cachoeira, que correra de touro bravo, que pôde visualizar até a flor negra. Ele que desvendou o mistério da Mãe da Luz sozinho. Não iria fugir a oportunidade de experimentar o maior evento da raça humana – os contatos imediatos de terceiro grau. Ah! Isso não ia não!
Dizia explodindo de ânimo que precisavam correr para não perder os etezinhos apeando da nave.
Sua esposa apavorava apelava em nome dos filhos:
--Como ficariam se nós sumíssemos. E se eles nos abduzirem, enfiarem coisas na gente, nos maltratarem ou matassem...
Falava sempre tentando fazer a perua parar enquanto Bira acelerava mais e mais. O terror de Zélia aumentava até despencar a rezar continuadamente, apelando ao Criador que o dissuadisse de tal empreitada, que os protegessem e guardassem seus filhos.
Naquele tempo não se falava em implante de dente e Bira respondia.
--Olha querida, a gente está com os dentes estragados, quem sabe eles não tem uma técnica de fazê-los vivos e fortes novamente – um implante por exemplo. Além do mais, você é diabética, com certeza devem ter medicina superior que faça restabelecer seu pâncreas ao normal ou tenham lá, um órgão biônico para qualquer problema. Imagine sua alimentação, deve ser tão bem elaborada que um só suquinho deve nos satisfazer mais do que qualquer alimento além de repor todas as nossas energias novamente.
--Eu falo em nome de Deus. Por favor, não vá! Ouça o que estou te dizendo!  Gritava ela espantada.
Enquanto Zélia reclamava, a perspectiva da aproximação dos Ets, inflamava cada vez mais a alma de Bira que comentava:
--Vou pedir a eles alguma coisa feita de um material que não existe na Terra para provar a todo mundo que tive realmente este contato. Espero que nos ensinem um pouco sobre viagens inter-estelares, pois sabemos que é praticamente impossível alguém viajar pelo espaço de um sistema estelar a outro. Deve haver alguma passagem, por dimensões que nós, pobres terráqueos desconhecemos, haveria espaços intermediários que nos permitissem viajar pelo cosmo? Aparelhos anti-gravitacionais que utilizam? São tantas as coisas que poderemos conhecer com este contato que nem importa que morramos depois, ou se implantarem algum aparelhinho em nosso corpo para nos comunicarmos com eles. De qualquer jeito, tudo vai valer a pena!
Quanto mais se aproximavam, mais sua querida murchava no banco, encolhia-se sem querer ver mais nada com as mão sobre a cabeça e olhos cerrados. Até que um grande grito de decepção quebrou o silêncio.
--Caramba!...
 Que pena!...
 Meu bem não é um disco voador , é só um Fiat com a frente amassada vindo pela estrada com os faróis virados um de frente para o outro, de forma a criar aquela forte luz no centro, se expandindo para os lados.
 Olhe lá a subida atrás dele. Ele vinha descendo daquele morro em meio a uma planície cuja escuridão não nos deixava perceber a elevação aqui na frente. Por isso é que vimos essa luz parecendo estar descendo do céu.
Enfim, para alívio da Zélia, a aventura dessa noite terminara.

R. Prata

OBS..: Essa história é verídica, só os nomes foram trocados.
          As fotos são bastante semelhantes ao que viram.