10.3.11

O BELZEBU DA CENTRAL DO BRASIL

É lá na Central do Brasil que os fatos ocorrem e ninguém fica sabendo. Lá o rapaz pratica surf em cima do trem, o pastor prega e recolhe o dízimo, o menino vende balas de goma, o pagode esquenta.

Pois é, lá o crime acontece e o Belzebu aparece.

Às vezes, um capeta vestido a caráter, com cavanhaque, chapéu coco, terno, gravata, botas tudo vermelho vinha mancando e rosnando como besta pelos trilhos.

De vez em sempre aparecia o outro; o Belzebu do vagão. Este era o pior, escolhia uma garota nova, encoxava e bulinava até fazê-la desmaiar. Todo mundo se sentia mal, mas ninguém se atrevia. Ele era grande e forte como cabia a um verdadeiro diabo, cheirava a enxofre, sua voz alta, grosseira, dava a sensação que ressoava das profundezas do inferno, era estúpido e ameaçador como o “coisa ruim”.

O Trem sempre lotado cheirava a misturas de urina, suores, desodorantes baratos, comida azeda. Podia ver-se a sujeira esparramada por todo lado, inclusive fezes reais. As pessoas viajavam apertadas ao extremo e de vez em quando, uma marmita amassava e entornava o caldo sobre outra pessoa. Atrasos, briga, gritaria, discussão sempre foram o cotidiano desse transporte.

Evitando a presença do Belzebu, tanto homens como mulheres, procuravam outro vagão ou até mesmo esperavam o próximo trem.

O tempo passava e esse inferno continuava na Central do Brasil, até quando, o Belzebu sumiu. Cogitou-se que uma gang o matara, ou um “rambo” sumira com ele, pensou-se até que as rezas do pastor o fizeram desaparecer. Mas qual nada, fora apenas uma pequena costureira, mãe de uma jovem molestada, que após retalhar o rosto do maldito com uma gilete, o recortou com sua tesoura.

Ah! Mulheres...
Como é bom tê-las para nossa proteção!

P.S. Apesar de o Belzebu sumir a Central do Brasil continua a mesma coisa.

R. Prata