2.3.11

A ILHA

Há anos, ciente de não ter mais todo o tempo do mundo, decidi só viver o melhor que o mundo teria a oferecer-me.

Precavido, mantive minha centena de long-plays. Vieram os CDs, DVDs, Pen-Drivers. Nenhuma destas novidades reproduzia as melhores orquestras, os grandes intérpretes e bons compositores. Como se não bastasse, o som dessa modernidade dita: “perfeita” parecia ressoar numa caixa de plástico.

Pois é, nada como o encanto dos velhos vinis ecoando numa antiga vitrola. O único incoveniente é trocar o disco toda hora.

Mas, qual a relação da música com viver o melhor que o mundo tem a oferecer?

Bom, música é imprescindível, influencia nosso estado de humor e sendo eu um escultor, uso orquestradas no ato da criação, rock e blues durante a elaboração da obra a ponto do ritmo marcar o compasso e a velocidade do bater do meu macete nas goivas (instrumentos de trabalho) e durante o prazer da lida, sobram minutos para ensaiar uns passinhos de dança.

É lógico, neste planeta, não há como evitar, vez ou outra, situações indesejáveis e nem a música resolve nossos problemas.

Quem desejar viver o melhor do mundo, há de se munir de muita atitude e apetrechos apropriados.

Se não tiver dinheiro para comprar uma ilha particular deverá construir a sua própria, esteja onde estiver. O que sai mais em conta é fazer da própria casa uma ilha.

É natural, cada um muda de atitude como melhor lhe convém.

No meu caso, afastei-me irremediavelmente de todo político de plantão, de pessoas dadas ao exagero na bebida, Aperfeiçoei-me em dizer não, fugi dos religiosos, aproximei-me mais dos amigos solidários. Desobriguei-me dos horários e haja o que houver, os compromissos esperarão enquanto me delicio com todos os por do sol pelo resto da vida. No mínimo, banhar-me-ei na Jurumirim uma vez por semana. Cerveja será bem vinda nos momentos oportunos.

Um ato difícil foi aposentar a TV aberta com tudo que ela tem de “bom” como: o desfile ininterrupto de marginais e corruptos, o oportunismo dos religiosos ocupando vários canais, as “celebridades”, os heróis vampiros, os heróis do Bial que tem “muito a dizer” no big-brother e suas respectivas companheiras curvilíneas, a música “maravilhosa”, o exibicionismo de certos apresentadores entre outras coisas.

Agora o apetrecho indispensável para qualquer possuidor de uma ilha é um PC com muitos gigas, uma banda bem larga e com as caixas de som trocadas por outras bem melhores.

Pasmem, pela internet você encontra rádio para o mais refinado ouvido, milhões de bons músicos jamais mostrados pela mídia do consumo, livros, os melhores artistas plásticos, os poetas e pessoas que sempre desejamos conhecer. Através dela faço pesquisas, escolho programas e filmes, ainda recebo lindas mensagens ilustradas com slides incríveis.

Penso que finalmente, agora posso desocupar o espaço dos meus queridos discos.

R. Prata