4.2.10

A NOTÍCIA QUE NÃO SAIU NO JORNAL


No mês de janeiro, essa lembrança me aporrinhava a cabeça. Relutei demais para escrever sobre o assunto, pois não dá poesia ainda menos, boa prosa. Mas se não escrevo, nem durmo.
Em dezembro de 2009, saiu a notícia sobre os passageiros da Central do Brasil depredarem um trem – (isso já aconteceu umas poucas vezes). Nenhum passageiro foi entrevistado. O noticiário se resumiu a chamá-los de “vândalos”.
Os repórteres da TV foram abruptamente afastados pelos policias federais (específicos da Central), a pretexto de conter a “possível” rebelião dos passageiros. Interessante é que, como sempre, nem notaram a truculência dos mesmos.
Até uma rádio daqui de Avaré igualmente chamou os usuários desse famigerado trem de “vândalos”. Lógico, baseando-se no noticiário televisivo.
Liguei para a rádio e disse que se esse trem circulasse na Espanha já tinham queimado a estrada de ferro inteira etc, etc. O repórter, disse que eu ligara e, mais uma vez, repetiu que essa era uma atitude de vândalos. Fiquei fulo. Ele não falou o que eu disse.
Durante anos viajei nesse trem e, em todos esses anos escrevi para os grandes jornais reclamando de suas más condições. Nunca publicaram meus apelos. Até um dia, no qual um repórter, de tanto receber minhas cartas, respondeu-me que nunca publicariam tais fatos por causa do patrocínio do jornal. Também era desculpável, pois a abertura política mal começara no Brasil.
Pois bem, aconteceu no dia 13 de maio de 1980 às 22,40 hs. Comemorava-se no dia, a assinatura da Lei Áurea e o presidente era o Figueiredo. Morava eu, em Itaquaquecetuba quando o trem no qual viajava, após uma curva em alta velocidade, chocou-se violentamente com uma composição parada logo após a curva. Nem vi o acontecido. Uma mulher gemendo, pedia socorro e quando fui socorrê-la percebi que também não podia. Só aí, percebi que havia muitas pessoas nas mesmas condições, inclusive eu. Os ferros onde as pessoas se seguravam tinham caído e alguns estavam retorcidos, os bancos estavam fora de lugar, imagino que meu corpo havia se chocado contra uma lateral do banco de madeira.
Devo ter passado algum tempo desmaiado e precisava sair do trem. O vagão estava meio tombado e era difícil descer. Sentia uma dor tão grande que nem tinha coragem de olhar para ver o que acontecera com meu corpo.
Mesmo assim, com um esforço sobre-humano desci do trem e andei uns seis quilômetros até em casa. A esposa dissera-me que eu estava com uma protuberância gigantesca nas costas. Esperei pela melhora durante uma semana, até ter condições de ir a um médico. Esperei muito, pois nos bairros que margeiam a Central do Brasil não tem médicos ou prontos socorros.
Não sei quantos ou quem morreu, Todos os que ouvi, pelo menos, gemiam muito, outros estavam apenas caídos, sem voz e muito machucados. Esperava um ressarcimento da Central pelos meus danos. Por isso, acompanhei avidamente o noticiário da TV. O papa João Paulo II tinha sofrido um atentado dia treze, o tornado Kalamazoo atrapalhou a vida em Michigan, Lady Di namorava o príncipe Charles, Jimmy Carter tropeçara na escada do avião, a inflação galopava, corrupção, violência, analfabetismo. O mundo estava lá, menos o terrível acidente.
Não sei como recolheram os destroços em surdina, mas sei que na Central do Brasil, ninguém, ouve, ninguém vê, ninguém sabe.

Rubens Prata 04-02-2010 - 00,58 hs.
Notas:1- Na expectativa de fazer-me ouvir, ainda pintei alguns quadros, cujo tema, eram os dramas da Central do Brasil.
2 – Nas imediações da Estação de Itaquaquecetuba, aconteciam, em média, uma assassinato por semana.
3 – As pessoas, nos bairros do subúrbio dormem cedo, pois acordam de madrugada para o trabalho. Portanto, não se encontrava ninguém na rua após o acidente e devo ter chegado em casa lá pela 1 hora da madrugada.