24.1.10

CACHORROS & CIA.

Esta história de cachorros e gente advém de meu hábito de observar a flora, fauna, edifícios, gente. Tudo enfim.
Na praça, onde trabalhava , tinha muitos amigos, inclusive nove cães de rua. Havia um baixinho, negrinho e mau humorado que tanto se recusava a brincar com os outros animais quanto a se aproximar de mim. Fora o rabugento, essa turma canina, passava para cumprimentar-me todo dia, parando sempre para uma conversinha. Papo de cão, é claro!
Aquela conversa gostosa estabelecida através de rabo abanando, alegres latidos, de ficar em pé apoiado no seu corpo, de pulinhos, de lambidas, de deitar-se no chão de barriga para cima mostrando submissão e humildade, de chegar com cabecinha abaixada e olhar amistoso.
No grupo, dois garbosos e grandes cães pareciam irmãos. Eram esnobes, recusando, às vezes, o prato mais apetitoso. Os outros, sem cerimônia, comiam de tudo. Mas, individualmente, cada um, guardava personalidade inconfundível. Dois deles, ao aproximarem-se de mim, davam a volta na rua, passando por trás, olhando de soslaio temendo o jacaré de madeira que esculpira. Um amalucado postava-se sempre a frente de um São José de cedro a latir a fim de chamar sua atenção. Sou escultor e essas doidices representavam sincera homenagem à minha arte.

Cara de um focinho de outro!
Era hilariante, o Pit Bull abre alas instigando os transeuntes a desviarem dele e do dono que trazia atrelado a forte corrente. A coleira preta, adornada de metais era igual as que prendiam os pulsos do jovem. Lá estava o par perfeito!
O rapagão, muito bem produzido em academias possuía igualmente ao cão um peito gigantesco, braços explodindo músculos, cabelo serrado a moda “bad boy”. Despertavam a idéia de que seus cérebros, deveriam ser do mesmo tamanho e, a dificuldade da fera ao coçar as pulgas com tanto peito e músculos deveria ser semelhante a do rapaz ao limpar suas partes pudicas.

Ah! O Pit Bull faz lembrar-me do gigante maravilhoso São Bernardo babão que puxava sempre um lambuzado, franzino e indefeso velho pelas ruas, defecando troços de elefante por toda a calçada sem o menor escrúpulo.


Bem, nem tudo é ruim, há fatos piores ainda!

Semana sim, semana também, transitava nas proximidades a ricassa com seu milionário animal – (o Ferrari dos cachorros) . Ele era alto como a mulher, seus longos e rigorosamente penteados cabelos eram idênticos aos da “madame”. Não tinham a menor sensibilidade artística, nem respeito ao semelhante. A fulana esperava pacientemente o dito cujo cheirar e urinar nas minhas obras, em seguida, vinha aquele troço fétido junto às imagens de madeira. Depois, ambos de rabo e nariz empinados, partiam sem a menor consideração. Esperava eu, um dia, pegar essa dona e esvaziar minha bexiga cheia, em suas pernas!

De vez em quando, aparecia o senhor de má fama. O tal acomodava-se no banco da praça com seu Pastor Alemão. Era até bonito de olhar aquela dupla juntinha no banco. Mas, ao passar alguém na calçada, o diabo, em fúria inesperada precipitava-se contra o transeunte, matando de susto o distraído. O sujeito calmamente puxava o demônio pela correia de volta para cima do banco sem pedir nenhuma desculpa às pessoas.
Talvez fosse justamente esta atitude, o motivo da fama daquele homem.

Minha esposa, adora animais, chega ao cúmulo de desviar a atenção ao volante, para mostrar-me um cão como se tivesse visto um canguru solto em plena cidade.
Pois é, ela mesma correu para paparicar um Maltês alvo que vinha sendo carregado por uma senhora de focinho fino, sapato alto, passinhos curtos e barulhentos como haveria de ser os passos da cadela se não estivesse em seu colo. A mulher sentiu-se lisonjeada com tanta admiração. Agradeceu, falou sorridente sobre não a colocar no chão para não sujar suas patinhas. Porém, quando minha mulher foi acariciá-la. A infeliz afastou-se gritando desesperada:
-- Não. Não ponha a mão! Não ponha a mão!
Puxa! Esse dia ficou para a história.
Achava a empertigada, que uma reles humana poderia contaminar sua cachorrinha.


Bom, nem tudo é mau neste mundo cão. Tive eu, dois cachorros que foram a minha cara.

Um deles foi o Max (diminutivo de Maximiliano), porte grande, robusto, cor marron sujeira e boca enorme. Não era exatamente meu, mas de um cunhado o deixou uns dez anos comigo.
Max tinha a força e a persistência de um caboclo, levou tiro de bala, mordida de cobra, lutou com feroz ariranha e muito mais.
Ele não era de prosear, embora tivesse tanto a contar. Protegia a casa, eu e a família como exímio guarda-costas. Era o bom e quieto companheiro de lida e de aventuras. Nunca mordia ninguém inutilmente, só caçador, assim que arredavam pé de seus veículos. Para a nossa alegria. É lógico!
Eu como ele, odiávamos caçadores.
A característica desse cão era a de um gentleman, não rodeava a mesa a espera de comida, preferia um pedaço de pão caseiro a um suculento bife. Aliás, só nesse caso, acompanhava o preparo da massa atentamente, esperava ir para o fogo onde se postava sentado apoiado ereto nas patas dianteiras, imóvel, com olhar fixo no vidro do forno até que o pão ficasse pronto. Embora ansioso, esperava educadamente sem pular ou avançar a sua parte dessa delícia do paladar.
Toda manhãzinha, saia eu e meu Max a procura de nossa vaca para tirar o leite do dia, eu corria quilômetros à pé, para pegá-la. Ele corria junto para espantá-la.
Tá certo, nem tudo era perfeito. Nossa! Isso dava uma canseira...

Tive outro, a Baby, que o Dr. me dera porque não saia do seu pé, não o deixava trabalhar. A experiência com corvense que são eles, os mais amorosos do mundo.
No princípio, chorava de saudades do médico. Com o tempo, se derretia em prantos se não a colocávamos para dormir conosco. Quando a esposa adoentava, Baby chorava baixinho ao pé da cama a noite inteira até seu restabelecimento.
Em casa andava grudadinha o dia inteiro com minha mulher, a ponto de atrapalhar as tarefas do lar.
Eu saia, ela ia junto. Nem precisava coleira, pois caminhava encostada a minha perna, passo a passo como militar.
Às vezes, saíamos de bicicleta, ela corria atrás, mas reclamava latindo, até o dia no qual descobrimos seu desejo de andar de bicicleta com a gente. A partir daí, a colocávamos num cesto em frente ao guidão, aonde a danada ia alegre e em pé, como a dirigir a bicicleta também.
Com a perua Kombi foi a mesma coisa, a púnhamos atrás, ela pulava para a frente, sentava entre eu e minha amada, colocava as patas na direção, e vez ou outra, ia na janela ao lado do motorista que era eu.
Num determinado dia infeliz, frio e chuvoso, tivemos que viajar, sem poder levá-la no ônibus, então a deixamos numa área com porta de vidro. Ela quebrou o vidro e não conseguiu entrar de volta, passou a noite ao relento esperando-nos. Cockers são muito frágeis às doenças e quando voltamos, ela estava fraca, No veterinário tomou injeções e medicamentos.
A Baby não nos deixava, ao voltar do veterinário, no colo da minha esposa chorando de mansinho, esforço-se até seu último fôlego, para pegar um pedacinho do meu colo também. Faleceu olhando para a gente.
Seu corpo esticado, assimilava naquele momento a forma de uma criança. Ou melhor, a de um anjo, travestido em animal, para viver amando-nos por um bom tempo.
Tive raiva de mim, porque não acreditava que pudesse gostar mais de um animal do que de um ser humano. Justo eu sendo um misantropo era inadmissível! Exatamente eu, mais do que ninguém em casa, chorei copiosamente e ininterruptamente por dois meses consecutivos.
Ainda hoje, depois de dezessete anos, quase não consigo terminar esta história, de tanto chorar de saudades.
Ela mudou-me, antigamente pensava que pessoas ligadas demais a animais, não conseguiam amar seres humanos. Hoje sei que há pessoas assim, mas há incontestavelmente outras que nasceram para amar todos os seres vivos.

Rubens Prata – 09/01/09